quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Elogio à Morte




elogio à morte


domingos de souza nogueira neto


Destas crenças humanas, das quais me rio às vezes, a morte é talvez a mais fantástica. Insistimos na idéia do início, do fim e do meio, como se nossa própria experiência conduzisse a isto, de forma inexorável, medida por régua escolar.

Para atenuar nossos medos, criamos deuses - nós criadores de deuses - que preenchem os espaços de nossa incopreensão. Ícones do pânico diante das trevas.

Os animais, nossos ascendentes verdadeiros, nos deixaram esta herança, a paralização trêmula diante do abismo que não nos atrevemos a saltar.

A morte seria então o fim - se não houvessem os deuses - e é de se temer o desfecho - ninguém, de nós impíos, mostra terror frente a juízes implacáveis da coragem, da pureza, da nobreza, do amor incondicional. Mas, o nada, é terrível... não entendo.

Sendo sincero, o temor a deus é algo que me assusta, muito, porque sou pouco, pequeno demais diante desta idéia. Já o conceito do nada, do fim, é, mesmo, confortável, o descanso, enfim, o fim das culpas.

Mas, confesso, que minha crença em deus caminha, pari passu, com minha crença no fim.

A impressão que tenho (aterrorizadora, de fato), é de que a Lei de Lavoisier, radicalizada, proporciona, não só para massa, ou energia, mas para a própria cultura, história e vivência (individual inclusive), um permanente e constante estado de transformação, sem tréguas ou leis, para a infinita incerteza da existência.

Nesta linha, não haverá descanso, perdão ou alívio presumíveis, mas apenas caminhos sem fim. Eu gostaria de não acreditar nisso, estou cansado.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Brumas de Paris


Brumas de Paris

domingos de souza nogueira neto


Ali estava eu, solitário em Paris. O "Café de Flore", meu favorito, estava vazio àquela hora e a vista de Saint Germain, da varanda, me fazia alheio, naquelas brumas de inverno.

Foi quando chegou, linda, de certa forma que atemorizava, a gargantilha com pontas, piercings na boca, sombrancelhas, lábios e nariz. Os cabelos, pretos, curtos, pontilhados, realçavam o negrume da maquiagem até a boca agressiva. Gótica sem dúvida. A tatuagem da serpente - seria um dragão? - mergulhava nos seios, desafiando minha imaginação a segui-la em viagem.

A semescuridão da hora era perfeita para ela, pronta para saltar sobre algo maior que eu - esquecido. O vestido o negro bem talhado, de decote amplo e a saia curta, realçavam a perfeição do corpo onde o artista desenhara.

Parou, montou a cigarrilha sobre a piteira longa, e sorveu um trago, que expeliu em baforada compondo com a neblina do chão a fugáz imagem de um cisne. Depois olhou além, como se esperasse pela noite ainda longe.

É certo que meu olhar perdido não a incomodava, brasileiro do interior, acostumado a personagens apenas literárias, tão cativo daquela presença que poderia me destruir com um único franzir inquieto de sombrancelhas.

Foi quando apareceu nas nuvens outra personagem, loira, de cabelos fartos que desabavam em cachos claros, olhos azuis e sorriso débil, quase flutuando. Vestido azul, até os pés, calçados com saltinhos que certamente serviriam a Cinderela. E - não sei se podem comprender - uma leve brisa parecia soprar apenas para mover aquele quadro.

Certamente as crianças a adorariam, deitariam no seu colo com gemidos curtos, a girariam cantando cantigas de roda em pradarias cobertas por florinhas brancas e pediriam que lesse as histórias das quais minha infância eram repletas. Poderia ser fada, princesa e a pele era alva a ponto de escurecer a névoa da manhã.

Dirigiu-se à primeira. Parou na verdade, tão perto, que compartilhavam a neblina respirada, as brumas do dia e o bafejo da cigarriha, que agora pendia ao longo do corpo, e, após cruzarem um olhar quase eterno, tomaram-se nos braços e se beijaram, sorvendo-se, lentas, tese e antitese, nas brumas de Paris...

FOTO: Cafe De Flore
by Jeanloup Sieff em http://www.allposters.com/

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

miríades e sombras


miríades e sombras

domingos de souza nogueira neto

Entre os cobertores espremia meus olhos, a noite me ensinou a estar só. Havia sempre o que ser temido. As sombras escuras que andavam enfileiradas e transformavam minha alma em gelo. Ao longe o noturno.

Apertando as pálpebras se espalhavam os cintilos, as vezes breves e sozinhos, as vezes em filas alegres, miríades, das quais só vim a saber com o passar de auroras.

Eram assim as minhas noites. Nada sabia dos meus pais, que estavam vivos, dormia na cama dos meus avós.

Conhecia do mêdo, da incerteza, das ausências traduzidas em sombra, e das criaturas da noite, que ocupavam o espaço entre os miúdos da infância e tudo o mais que haveria de vir.

Entre uma e outra, minipsicodélicas brincadeiras de luz, alheias aos meus terrores e a onipresença das sombras, existiam, de fato, quem havia de dizer, diamonds que Lucy haveria de ver in the sky.

Não via o universo de galáxias e buracos negros, nem trevas salpicadas, meu jovem rosto pouco alcançava pelo buraco do cobertor.

Havia apenas a criança, assombrada pelo desconhecimento, pontuado por pequenas luzes, sobre o qual nada podia, esperando pela hora de acordar.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

canalha...


canalha...
(*) domingos de souza nogueira neto

***
Não se limitou a pensar isto, nem a falar ... ali estava, escrito e assinado: - É um canalha!
A perplexidade dos tolos me tomou por completo. Como assim um canalha? O havia acolhido, insistido em uma promoção improvável, nunca, em nenhum momento, havia dirigido a seu respeito uma palavra de desafeto, ou desconsideração, mas ali estava o texto. - canalha!
Não acredito em santos, nem em deuses, me perdoe quem não é assim, pensei então em Chico, Caetano, Jobim, Elis e Betânia, como lidar com isso? A pessoa que ajudara, sem querer nada em troca, pelo prazer de o ver feliz, escrevera canalha, sobre este velho, que não conseguia atinar sobre qualquer razão para ser carimbado desta forma. Os poetas haveriam de ter algo a dizer.
Todos sabiam (mas não eu), deste estigma, porque, por alguma razão misteriosa, ele me marcara e informara a todos.
Estava de licença, tirando horas havidas na casa, mas voltaria, sorriria para mim como uma fuinha hipócrita, e, em seu sorriso dissimulado eu leria: canalha!
Um soco, rápido e certeiro, tiraria aquele sorriso depravado (muitos e melhores poetas socaram por menos), mas ele cairia no chão rolando, como uma lesma gorda e choraria dizendo: - o canalha me bateu!
Deixarei então, perdoem-me os poetas, o vômito nos lábios da criatura sórdida, para que siga em frente, cuspindo sobre os que o ajudaram, não me cabe esquecer o que disse, nem quem era, mas tampouco posso me esquecer de quem sou, e não isto.
Este visco será então a sua marca, esta baba, os que olharem para os seus passos não verão pegadas, verão ranço. E aqueles que lhe estenderam a mão generosa, viverão com o asco do toque em desaviso.
***

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Dia de Morrer


Dia de Morrer

Domingos de Souza Nogueira Neto


Não me recordo do silvo, do som sibilo, que em minhas memórias futuras estava guardado. As três picadas, o calor bem pontuado, a fraqueza nos joelhos, que me fez cair, depois o frio, e o sono...
Espantei preocupações com a mulher, os filhos, crianças ainda... Meu futuro se dissociava do deles, melhor esquecer... Procurei não pensar em Deus, nada do depois me parecia familiar.
Naquele breve crepúsculo lembro-me de rostos curiosos, do meximento de homens, uniformes, do agudo aflito se afastando.

Sei que morri.


***

terça-feira, 9 de junho de 2009

amor - domingos de souza nogueira neto


amor

Domingos de Souza Nogueira Neto

Gosto de dançar com você,
de ter ver flutuar,
como princesa,
única mulher!

Gosto de te ouvir,
de saborear palavras sem pressa,
atento a cada modulação,
nuvens de sentimentos...

Gosto do olhar másculo que me vem,
da certeza de que és admirada,
mas sempre minha,
certamente minha.

Gosto de te ver,
entre roupas e sapatos,
e te visto e dispo ao olhar,
enquanto se quer mais bela.

Gosto de te esperar,
certo de que vens,
de que me quer,
e te quero!

Gosto de brilhar para ti,
esquecendo-me do arredor,
do brilho dos seus olhos,
quando se admira de mim.

Sei da corrente dos sentimentos,
que me levam e trazem,
neste vaivém sem fim,
onde flutuo sem nadar.

Sei da eternidade,
sei da fugacidade do amor,
e cuido do que é,
agora.
***
FOTO: Purity
By: Amy D View Full Portfolio (215 images)
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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Espelhos Vikings


Espelhos Vikings

Domingos de Souza Nogueira Neto


A luz de Mani que atacava a janela, esbranquiçando os gritos e os brados, registrava nos espelhos espalhados, odor purpúreo pelo qual o brilho vela. Os mortos viriam antitesar a vida, calva servida em crânios insepultos, mulheres rasgadas sorrindo, entre insultos ... por pouco mais, por pouco menos, tudo. As três nornas marcavam trilha em sina, lobos rondavam em busca de outra lida, e verbo pai de profecia sibilina, tornava em ato a maldição contida. Ao canto ao tanto o soterrado brilho, polido por mãos afetas a sortida, jogada a peça que reflete a morte e a vida, em mão de mago o mortal sarilho. Festa que a orgia esboçava, na costa eslava velava a quem morria, pois nobre aquele que no fogo arde, amor gentil é o amor de escrava. O certo é que as fogueiras junto a lua, nos espéculos, premiam em luz ao tido, e ainda hoje, no passar dos séculos, quando a völva profecia se fez rito, as almas mansas de vinda judia, revirando os espelhos d´almas nuas, não vêem marcas de qualquer perfidia.
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IMAGEM: Funeral Viking