*** Não se limitou a pensar isto, nem a falar ... ali estava, escrito e assinado: - É um canalha! A perplexidade dos tolos me tomou por completo. Como assim um canalha? O havia acolhido, insistido em uma promoção improvável, nunca, em nenhum momento, havia dirigido a seu respeito uma palavra de desafeto, ou desconsideração, mas ali estava o texto. - canalha! Não acredito em santos, nem em deuses, me perdoe quem não é assim, pensei então em Chico, Caetano, Jobim, Elis e Betânia, como lidar com isso? A pessoa que ajudara, sem querer nada em troca, pelo prazer de o ver feliz, escrevera canalha, sobre este velho, que não conseguia atinar sobre qualquer razão para ser carimbado desta forma. Os poetas haveriam de ter algo a dizer. Todos sabiam (mas não eu), deste estigma, porque, por alguma razão misteriosa, ele me marcara e informara a todos. Estava de licença, tirando horas havidas na casa, mas voltaria, sorriria para mim como uma fuinha hipócrita, e, em seu sorriso dissimulado eu leria: canalha! Um soco, rápido e certeiro, tiraria aquele sorriso depravado (muitos e melhores poetas socaram por menos), mas ele cairia no chão rolando, como uma lesma gorda e choraria dizendo: - o canalha me bateu! Deixarei então, perdoem-me os poetas, o vômito nos lábios da criatura sórdida, para que siga em frente, cuspindo sobre os que o ajudaram, não me cabe esquecer o que disse, nem quem era, mas tampouco posso me esquecer de quem sou, e não isto. Este visco será então a sua marca, esta baba, os que olharem para os seus passos não verão pegadas, verão ranço. E aqueles que lhe estenderam a mão generosa, viverão com o asco do toque em desaviso. ***
terça-feira, 13 de outubro de 2009
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Dia de Morrer

Dia de Morrer
Domingos de Souza Nogueira Neto
Não me recordo do silvo, do som sibilo, que em minhas memórias futuras estava guardado. As três picadas, o calor bem pontuado, a fraqueza nos joelhos, que me fez cair, depois o frio, e o sono...
Espantei preocupações com a mulher, os filhos, crianças ainda... Meu futuro se dissociava do deles, melhor esquecer... Procurei não pensar em Deus, nada do depois me parecia familiar.
Naquele breve crepúsculo lembro-me de rostos curiosos, do meximento de homens, uniformes, do agudo aflito se afastando.
Sei que morri.
***
terça-feira, 9 de junho de 2009
amor - domingos de souza nogueira neto

amor
Domingos de Souza Nogueira Neto
Gosto de dançar com você,
de ter ver flutuar,
como princesa,
única mulher!
Gosto de te ouvir,
de saborear palavras sem pressa,
atento a cada modulação,
nuvens de sentimentos...
Gosto do olhar másculo que me vem,
da certeza de que és admirada,
mas sempre minha,
certamente minha.
Gosto de te ver,
entre roupas e sapatos,
e te visto e dispo ao olhar,
enquanto se quer mais bela.
Gosto de te esperar,
certo de que vens,
de que me quer,
e te quero!
Gosto de brilhar para ti,
esquecendo-me do arredor,
do brilho dos seus olhos,
quando se admira de mim.
Sei da corrente dos sentimentos,
que me levam e trazem,
neste vaivém sem fim,
onde flutuo sem nadar.
Sei da eternidade,
sei da fugacidade do amor,
e cuido do que é,
agora.
de ter ver flutuar,
como princesa,
única mulher!
Gosto de te ouvir,
de saborear palavras sem pressa,
atento a cada modulação,
nuvens de sentimentos...
Gosto do olhar másculo que me vem,
da certeza de que és admirada,
mas sempre minha,
certamente minha.
Gosto de te ver,
entre roupas e sapatos,
e te visto e dispo ao olhar,
enquanto se quer mais bela.
Gosto de te esperar,
certo de que vens,
de que me quer,
e te quero!
Gosto de brilhar para ti,
esquecendo-me do arredor,
do brilho dos seus olhos,
quando se admira de mim.
Sei da corrente dos sentimentos,
que me levam e trazem,
neste vaivém sem fim,
onde flutuo sem nadar.
Sei da eternidade,
sei da fugacidade do amor,
e cuido do que é,
agora.
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amor
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Espelhos Vikings

Espelhos Vikings
Domingos de Souza Nogueira Neto
A luz de Mani que atacava a janela, esbranquiçando os gritos e os brados, registrava nos espelhos espalhados, odor purpúreo pelo qual o brilho vela. Os mortos viriam antitesar a vida, calva servida em crânios insepultos, mulheres rasgadas sorrindo, entre insultos ... por pouco mais, por pouco menos, tudo. As três nornas marcavam trilha em sina, lobos rondavam em busca de outra lida, e verbo pai de profecia sibilina, tornava em ato a maldição contida. Ao canto ao tanto o soterrado brilho, polido por mãos afetas a sortida, jogada a peça que reflete a morte e a vida, em mão de mago o mortal sarilho. Festa que a orgia esboçava, na costa eslava velava a quem morria, pois nobre aquele que no fogo arde, amor gentil é o amor de escrava. O certo é que as fogueiras junto a lua, nos espéculos, premiam em luz ao tido, e ainda hoje, no passar dos séculos, quando a völva profecia se fez rito, as almas mansas de vinda judia, revirando os espelhos d´almas nuas, não vêem marcas de qualquer perfidia. *** IMAGEM: Funeral Viking
segunda-feira, 18 de maio de 2009
minemai mymine

Homenagem ao amigo
Júlio Goa de Almeida
Da eternidade para a eternidade
Júlio Goa de Almeida
Da eternidade para a eternidade
minemai
mymine
Eu não posso atestar a fidelidade deste poema, que chegou a mim de forma curiosa, no início da década de 1970, um velho amigo, especializado em literatura, me apresentou texto de poema, em dialeto notúmbrio, provavelmente do Séc. XIV, e que, segundo ele, era transcrição de fragmento manuscrito, encontrado solto, em pesquisa no monastério inglês de Lacock_Abbei (v. foto).
Não tive acesso ao original, apenas a compilação apresentada, que traduzimos rapidamente, em um dos antigos bares do edifício Maleta, em Belo Horizonte, bêbados e de madrugada, mas, apaixonados pela descoberta.
O fragmento tinha peculiaridades, eram dois sonetos superpostos, usando recurso que só viria a ser valorizado no concretismo, séculos depois, e, em dois estilos literários diferentes, algo do parnasiano e algo do barroco, para descrever duas visões do poeta acerca de uma única mulher.
Pouco depois meu amigo veio a falecer no trágico incêndio do Edifício Joelma, e eu, mergulhado em depressão, não tive a grandeza procurar seus familiares (nem sei se sobreviveram, nem saberia para quem ligar...), do texto original, nenhum vestígio.
Mas, recentemente, encontrei em meus guardados, dentro de um livro, do Ulisses, de Joyce, que sempre me chama a releitura, nosso fragmento bêbado, ainda com as marcas de nossa última aventura, em tradução apressada para o português, que é o que tenho.
Muito embora neste blog tenha prometido postar apenas textos meus, tenho a esperança que nesta imensa rede de detetives virtuais, venha a ser descoberta a resposta para o que nos faltou, por pouco tempo, pouca vida e muita cerveja... Que Apolo nos devolva o que Dionísio nos negou. E afinal, talvez se trate disto, a mesma mulher, um só homem, parte Febo, parte Baco. Vejam os poemas, lendo as colunas separadamente (e lembrem-se que no texto original tudo rimava, mas já não o tenho):
Não tive acesso ao original, apenas a compilação apresentada, que traduzimos rapidamente, em um dos antigos bares do edifício Maleta, em Belo Horizonte, bêbados e de madrugada, mas, apaixonados pela descoberta.
O fragmento tinha peculiaridades, eram dois sonetos superpostos, usando recurso que só viria a ser valorizado no concretismo, séculos depois, e, em dois estilos literários diferentes, algo do parnasiano e algo do barroco, para descrever duas visões do poeta acerca de uma única mulher.
Pouco depois meu amigo veio a falecer no trágico incêndio do Edifício Joelma, e eu, mergulhado em depressão, não tive a grandeza procurar seus familiares (nem sei se sobreviveram, nem saberia para quem ligar...), do texto original, nenhum vestígio.
Mas, recentemente, encontrei em meus guardados, dentro de um livro, do Ulisses, de Joyce, que sempre me chama a releitura, nosso fragmento bêbado, ainda com as marcas de nossa última aventura, em tradução apressada para o português, que é o que tenho.
Muito embora neste blog tenha prometido postar apenas textos meus, tenho a esperança que nesta imensa rede de detetives virtuais, venha a ser descoberta a resposta para o que nos faltou, por pouco tempo, pouca vida e muita cerveja... Que Apolo nos devolva o que Dionísio nos negou. E afinal, talvez se trate disto, a mesma mulher, um só homem, parte Febo, parte Baco. Vejam os poemas, lendo as colunas separadamente (e lembrem-se que no texto original tudo rimava, mas já não o tenho):
minemai
mymine
Árcade pétala da flor mais delicada,
Boas lembranças do seu corpo na alcova,
Nas águas a banhar tão belos pés,
Príncipe Galeotto me traz boa lembrança,
Sorriso branco de luz da alvorada,
De quatro moças que meu o corpo amava,
Porta d´alma que mostra quem tu és.
Prudência, Justiça, Fortaleza, Temperança
***
O nome Mai, náiade de Escamandro,
A peste negra, a morte triste velha praga,
Onde Heracles plantou a prima fonte,
Onde sugaram Fé, Esperança e Caridade
Por aonde vais dá nome ao meandro,
Mantiveram-te cativa desta minha ilharga,
Que alenta a sina de Orfeu, o viajante.
Para a qual busquei-te na mais tenra idade
***
Se o meu canto pudesse encontrar-te,
Padres freiras unem preces d’outros cantos
E atraí-la para amor, Vênus e Eros,
Para deuses helenos, Razão, Ira e Luxúria,
Consagraria aos deuses minha arte.
Cobrindo os mortos com o fogo em manto.
***
Minha lira tangeria aos deuses feros,
Enquanto correm para todo lugar os tontos,
E da alegria falaria em toda a parte,
Meu bem de nós não vem qualquer lamúria
Tocando apenas o prazer de amar-te.
Corpos que mexem, pois não somos santos.
***
FOTO: Monastério de Laccok Abbey
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Mai
sexta-feira, 15 de maio de 2009
a carta

a carta
Domingos de Souza Nogueira Neto
Zé, da janela do quarto, via o beco onde os vizinhos despejavam o lixo. Se tivesse sorte veria uma ratazana empanzinada fugindo dos gatos sempre rondando, ou, sendo apanhada por aqueles tigres sem título de nobreza.
O cheiro não o incomodava lá no terceiro andar onde estava, e olhar para fora, o livrava do constrangimento de olhar para dentro.
Havia em tudo certa ordem, as mesmas sacolas rasgadas, de vísceras expostas. O sofá de pouco estofo estirado ao canto. As latas de tampas entre_abertas...
Foi quando algo chamou sua atenção. Em cima da caixa de papelão, meio enviesada pelo peso dos restos de latas e garrafas, a carta. Deteve-se perturbado por aquela intrusa em sua rotina. Não havia sinal de amassados, borra de comida, rejeição. Perfeita, em envelope alvo, estava ali, uma carta, depositada, não jogada.
Ficou matutando por um tempo, aquilo estava errado, quase que uma profanação. Alguém percorrera aquele espaço, colocara ali sua correspondência e fora embora. Não – delírio! - era algo que caíra, ou a ira da rejeição a amor insistente, que voejara de uma das janelas e pousara ali.
Tranqüilizou-se instantaneamente, logo o vento a brisa do beco a sopraria, ou as mãos do lixeiro descuidado a misturariam à turba, e tudo voltaria ao normal. Foi quando ela surgiu...
Hipnotizado a contemplou a surgir no seu ângulo direito de visão, moça, ali dos seus trinta anos, cabelos penteados, rosto maquiado, saia e blusa perfeitamente combinados, sapatos e meias. Em passos seguros entrou na viela.
Queria gritar que saísse dali, aquele era o seu lugar! A carta, e agora ela, nada fazia sentido. Mas ficou mudo, gritou para dentro.
A moça entrou como se estivesse na sala, alisando a saia, sentou no velho sofá - que certamente não esperava por mais ninguém - tomou a carta entre os dedos, revirou-a cuidadosamente, para só depois lê-la, de forma casual.
Ao final, com meio sorriso, ela se levantou, tirou cuidadosamente, o casaco, deixando-o ao chão, os bricos, a camisa, o pequeno relógio, o sutiã, a saia, a calcinha, as meias, e ao final o sapato, seguindo, nua, com sua carta, para a grande rua e a cidade de que viera, onde nada fazia sentido.
Zé examinou a cena reconstituída na ruela, as roupas caídas, como tudo o mais. A dama se fora, e com ela, a carta. A ordem voltou a reinar no mundo. ***
***
sexta-feira, 8 de maio de 2009
os olhos

os olhos
Domingos de Souza Nogueira Neto
Caminhando pela Avenida São João encontrei no chão um par de olhos, rasos, perdidos, cheios de mágoa. Como não vi o dono, coloquei-os no bolso e fui para casa.
Quando os saquei dos bolsos da velha calça jeans, ao chegar, estavam mareados, luzindo prazer e loucura, mirando os arredores, como felinos que preparassem o bote. Pensei, mas não tive coragem de jogá-los fora.
Mas afinal onde se guardam olhos? Na falta de resposta deixei-os em um prato sobre a mesa.
Misteriosos, ficaram ali, parados, fazendo-me pensar em janelas e mirantes.
Não me podia me afastar de pensar neles, turbulentos, profundos, mas confusos. Agudos penetréis da alma alheia, como são complexos os olhares perdidos.
Algo nos meus olhos brigava com aqueles olhos. Eles não se entendiam. E aquele sentimento do deslocado, do não lugar, começou a me tomar lenta_mente .
Dormi um sono intranquilo, em prece, para que eles - multiformes, caleidoscópios, e pórticos, da razão e desrazão - encontrassem logo a solução perdida, afinal, são olhos!
A luz da manhã, pela janela do dia sguinte, me disse o que fazer - nada como a luz para dizer aos olhos.
Fui a cozinha, e com uma colher de sopa, extraí, com cuidado, meus dois olhos, e encaixei os novos no lugar. Os antigos, que me olhavam aflitos, atirei pela janela. Alguém havia de encontrá-los e cuidar deles.
Quando os saquei dos bolsos da velha calça jeans, ao chegar, estavam mareados, luzindo prazer e loucura, mirando os arredores, como felinos que preparassem o bote. Pensei, mas não tive coragem de jogá-los fora.
Mas afinal onde se guardam olhos? Na falta de resposta deixei-os em um prato sobre a mesa.
Misteriosos, ficaram ali, parados, fazendo-me pensar em janelas e mirantes.
Não me podia me afastar de pensar neles, turbulentos, profundos, mas confusos. Agudos penetréis da alma alheia, como são complexos os olhares perdidos.
Algo nos meus olhos brigava com aqueles olhos. Eles não se entendiam. E aquele sentimento do deslocado, do não lugar, começou a me tomar lenta_mente .
Dormi um sono intranquilo, em prece, para que eles - multiformes, caleidoscópios, e pórticos, da razão e desrazão - encontrassem logo a solução perdida, afinal, são olhos!
A luz da manhã, pela janela do dia sguinte, me disse o que fazer - nada como a luz para dizer aos olhos.
Fui a cozinha, e com uma colher de sopa, extraí, com cuidado, meus dois olhos, e encaixei os novos no lugar. Os antigos, que me olhavam aflitos, atirei pela janela. Alguém havia de encontrá-los e cuidar deles.
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